segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

Theodora




E aqui caros leitores, lhes vai um pequeno conto fruto de minha torturosa imaginação...

Parte de outra coleção e contrução de mundo. Espero do fundo de mio coração que gostem

 

 "A Attika, terra dos elfos, dos negócios, dos primeiros mortais a montar dragões. Terra dos estudiosos e dos simpósios assolada a muitas eras atrás por um cataclisma que levará uma porção de suas terras esse povo escolhido dominou novas terras se dividindo em subregiões... mas não este não é o personagem principal de nossa história poderias tu ó caro leitor adivinhar quem serias? Continuemos para a capital desta nação com tantos estudiosos e dito sábios que viviam ainda sobre os dogmas do agora afogado Titã Narciso e tudo que não fosse perfeito não deveria existir assim aqueles que não nasciam perfeitos eram decapitados ao nascer.


Sendo assim temos um casal não muito feliz um importante arkhon já velho que precisa de um herdeiro e logo e sua pobre e inútil esposa, tão jovem e ingênua e que faz todos questionarem se é capaz ou não de ter filhos afinal já se passaram 4 anos desse casamento e nada de filhos ou de um útero inchado. O marido não gosta da companhia das mulheres, por isso pelo menos umas 3 vezes na semana ele faz seus simpósios com belos jovens para satisfazer suas necessidades. Já a mulher vive trancada em seus aposentos, tão pequena que poderia ser confundida com uma menina de pouca idade facilmente e a mulher, é a mais triste da cidade, quase não come apenas olha de forma vazia a cidade através da janela. Observa as meninas que brincam na rua com seu riso contagiante, os mercadores que vem do enorme porto da cidade. Nada além ela faz.


Quando ele termina seus simpósios visita o quarto da mulher e faz tudo com violência pois apenas a imagem daquele rosto triste e miserável dela lhe causa fúria, as criadas são sempre instruídas a vesti-la de forma que esconda qualquer marca não seria bom se nas vezes em que saem juntos os outros vissem afinal. Se ela ao menos melhorasse seu humor talvez ele fosse mais gentil com ela, mas era uma ingrata, deveria regozijar-se ela havia se casado com um grande arkhon, queria mais honra que essa?


A criada quando ninguém via chorava por sua senhora, a miséria dela contaminava ela, era doloroso ver uma garota tão bela como uma fada sendo tão vazia e triste e quando o senhor saia ela tentava levar a senhora para passear, para andar pela praia. Tinha ouvido um médico certa vez dizer que o ar das marés era bom para os nervos. Na praia seu olhar ganhava um pouco de vida, mas sentia que o vento das marés um dia a derrubaria pois desde a cerimônia ela ficou mais magra a cada dia, sumindo um pouco a cada dia junto com o brilho em seu olhar. Às vezes elas iam ao templo de Hera e a criada orava pelo casamento da senhora já que ela não falava mais, nem mesmo para rezar.


Já o arkhon era gordo e arrogante sempre propondo nas ekklesias mais leis e projetos que o enriquecessem mais e mais, durante as discussões sempre estava acompanhado de uma jarra de prata com o vinho mais requintado que tivessem para vender sendo servido por um belo e jovem rapaz, a beleza da juventude o agradava principalmente os que mais parecessem de boa saúde; de bochechas coradas e um sorriso estampada acompanhados de lábios vermelhos como o vinho que ele tanto tomava.


Certa vez na volta da visita ao templo Theodora viu um gatinho quase tão miúdo quanto ela chorando num canto e pediu para a criada carregá-lo pois ele seria seu; algo para ela amar. E teria sido se ele não tivesse perdido na votação para um projeto na ekklesia, quando chegou em casa e ouviu o choro do gato se enfureceu de vez e o gatinho foi seu alvo naquela noite. E ela dormiu agarrando os joelhos, dormiu entre as lágrimas e questionamentos. Por que eu?


Um elfo de prestígio, respeitado e até mesmo amado por alguns e agora antes da ekklesia ele anunciava que sua amada e querida esposa estava grávida pela primeira vez! O primeiro de muitos meninos saudáveis ele dizia assim seria pois o arkhon já havia profetizado. A criada recebeu instruções para obrigar Theodora a comer mais, o médico disse que para a criança nascer bem a mãe deveria estar saudável e era claro que ela estava longe disso. Ela se sentia mais alegre pela primeira vez em anos e apesar dos desconfortos a mais por conta da gravidez ela sentia que teria alguém para compartilhar tudo, uma metade sua naquele lugar, alguém que a respeitasse e entendesse.


Quando a barriga ficou aparente e as bochechas começaram a ter cor ele mandou a deixar bela como uma princesa e uma vez a cada mês ele a levava para passear pelas ruas nobres da cidade, ele seria pai! Teria um herdeiro e queria que todos vissem e caso passasse por algum elfo, ele a beijava na bochecha afinal eram um casal feliz não? Vestida sempre em tons claros com uma bela tiara em sua cabeça e seus cachos adornados com flores coloridas fazendo com que ganhasse o apelido de Démetra


O tempo passou e o tão esperado momento chegou, a criança finalmente estava vindo numa noite de ventania e como Theodora gritou, era uma dor descomunal como se seu corpo fosse explodir. O suor se misturou com o sangue na cama, o marido esperava ansioso atrás de finas cortinas que dançavam com os ventos que invadiam o quarto pela janela. A criada, segurava a mão de sua senhora e finalmente o pequeno saiu e o alivio chegou em Theodora que finalmente relaxou o corpo, a parteira segurou e de fato era um menino assim como o elfo havia profetizado; a mãe ansiava para finalmente segurar o menininho estava quase falando mas antes o médico pegou uma fina agulha para testar a criança afinal precisavam saber se era saudável, sem piedade cutucou a sola do pé do bebe.


Não reagiu, o olhar do marido aos poucos virava um olhar de repulsa e a mãe tinha medo nos tristes olhos e anunciou ao médico que a criança era defeituosa, que não poderia andar e apenas um cruel destino recaia sobre o recém nascido naturalmente. Levaram o bebezinho de Theodora que nada pôde fazer, quando se levantou para tentar impedir o que seria feito, o marido a espancou pouco se importando se havia acabado de dar a luz. A criada temeu pela vida da senhora que agora mais do que nunca sangrava no chão, o elfo a xingava e dizia todos os tipos de escárnios possíveis. Quando ele saiu do quarto ela se arrastou até a janela e viu dali seu pequeno sendo decapitado e jogado no poço como se fosse menos que as sobras dadas aos cães.


Os companheiros políticos do elfo culparam os deuses malignos pelo infortúnio de seu colega, mas sempre que podiam zombavam dele, não tinha herdeiros e apesar da fortuna tinha uma esposa inútil, que nem ao menos servia para lhe dar um filho saudável. Dois meses e meio se passaram a partir do ocorrido e a bela barriga que protegia seu menino sumiu e seu corpo atrofiou se antes parecia doente agora era uma carcaça que não se movia nem ao menos para comer. A criada tentou cuidar da senhora mas agora era impossível já que a mulher não se movia. E o arkhon começou a realizar mais simpósios a fim de se distrair da coisa fétida que habitava sua casa. 


Theodora sabia que iria morrer e pior sabia que morreria como a esposa daquele elfo inchado que não teve compaixão pela criança dela, não suportava a ideia então resolveu morrer longe da capital, da cidade com suas casas de mármore. A criada saiu para encontrar seus familiares e o marido como sempre iria começar um simpósio logo, ninguém notaria sua saída. Pegou um pedaço de pau para usar de bengala, pois cada passo lhe doía por conta da fome e usou um manto maltrapilho para esconder sua aparência. E como sempre nada falou, não emitiu som algum. Através de caronas com carroças no auge da noite, ela chegou a um monte alto, um lugar em que morreria como ninguém, assim como fora por toda sua vida miserável; uma ninguém, nada além daquela carcaça fétida. 


Soltou a bengala e observou lá embaixo as ondas baterem contras as rochas pontudas que perfurariam seu corpo e seriam seu túmulo, estava pronta iria pular. Quando se virou de costas para se jogar ela viu algo sombrio lhe encarando, algo que chamou a atenção mais do que o próprio suicidio e a criatura de olhos brilhantes sorriu com seus dentes pontudos para ela e sussurrou “Ó doce criança de cachos tão belos que parecem os da uva, por que choras? Por que te ajoelhas para os imundos tão desprezíveis comparados a ti ó graciosa? Pegue minha mão tão obscura quando o sussurro do corvo e que tu renasças para uma vida de deleites tão vermelhos quanto o vinho que o desgraçado toma” o rosto cravejado em lágrimas estava hipnotizado pela proposta, de qualquer forma aquela vida miserável finalmente se cessaria. E sem muita cerimônia ela tomou a mão da medonha criatura.




Fala


O simpósio estava em seu auge, os bardos cantavam e todos se esbaldavam no vinho e o arkhon estava bêbado o suficiente para rir, para não notar o vermelho que espalhava no chão, o vinho espesso e viscoso, o sons abafados e as aludes que paravam suas melodias uma a uma apenas notou a cena a sua frente quando o belo rapaz que enchia sua taça não atendeu seu chamado, quando olhou para a festa viu corpos no chão, todos sem vida e um rio de sangue quente espalhado no chão. O seu rosto se vestiu em um horror tão tamanho que não teve capacidade de gritar, ficará ainda mais mudo quando viu o executor da obra a sua frente: era a bela Theodora, ainda era miúda mas sua pele tão bela quanto o mármore das paredes da casa, os cachos formando um desenho perfeito e seus lábios delicados vermelhos como o sangue que escorria dos pescoços de seus companheiros.


Tentou se rastejar para trás, balbuciava, temia por sua vida e até se perguntava “ Porque eu?” e ela andava graciosa até ele, imponente com seus belos olhos castanhos brilhantes como de um gato bem arregalados para ele tudo isso acompanhado de um sorriso avermelhado. E como o felino ela se abaixou e engatinhou dois passos largos até ele que sentiu um ar gelado saindo das narinas dela, o ar de um morto. E sem esforço ela cravou a mão direita no peito dele e arrancou o coração, encarou o frouxo mecanismo que ainda pulsava em sua mão, por alguma bizarrice ele ainda tinha um tênue fio de vida que se dissipava. E pela primeira vez ela falou, com uma voz aveludada e infantil “Sempre me questionei se tinhas um coração.”. "


Esta é uma história autoral. Retrato de muitas das reações ao luto. Á repressão e violência doméstica, tanto verbal quanto física, moral e financeira; que sejamos capazes de nos levantarmos e lutarmos contra tais indecências.


Com carinho

     La Chimera

Theodora

E aqui caros leitores, lhes vai um pequeno conto fruto de minha torturosa imaginação... Parte de outra coleção e contrução de mundo. Espero ...